Etno Botânica - O VESTIR DA COR - III






O VESTIR DA COR  
O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE AS CORES
QUE NUTREM
A INSUSTENTÁVEL “DECÊNCIA” HUMANA



CORANTES SINTÉTICOS NO BRASIL
            A produção de corantes sintéticos no país supre 60% da sua demanda interna. Estas indústrias localizam-se no eixo Rio - São Paulo, dependem de derivados petroquímicos importados tais como: benzeno, naftaleno, tolueno - suas principais matérias-primas.
         Com clima tropical, a base de nossa indústria têxtil é o algodão, representa 70% do total de fibras industrializadas no país. O consumo de fibra têxtil per capita no Brasil é estimado em 7,0 kg de algodão por ano, por habitante, sendo ligeiramente maior do que a média mundial.
      No Brasil os corantes sintéticos representam um consumo per capita (por habitante) de aproximadamente 350 gramas de corantes por ano.
            Nos últimos anos as importações oriundas da China e Índia, demonstra um aumento anual de 40%, devido a grande demanda interna por corantes ácidos (cerca de 8% da demanda mundial) e corantes reativos (6% do consumo mundial) utilizados para tingir couro e algodão, respectivamente. Tendência que aumenta os riscos ao meio ambiente e a saúde no Brasil, pois nestes países citados não existe legislação quanto a proibição de substâncias tóxicas, e muitos dos corantes que são proibidos na Europa, entram no Brasil sem nenhum controle.
            De difícil fiscalização, o comércio quando feito por importadoras (não produtoras), pulverizam a sua utilização, uma vez que grande percentual das tinturarias, lavanderias e outras empresas compradoras, são pequenas empresas. E a grande maioria destas, não possuem tratamento adequado de efluentes.

EFLUENTES COLORIDOS


 A indústria têxtil mundial, anualmente descarta de 40.000 a 50.000 toneladas de corante em seus efluentes, e mais de 200 mil toneladas de sal que também são utilizado nos processos de tingimento. Assim, com aumento do uso desta grande variedade de tinturas, a poluição por corantes químicos em águas residuais está se tornando cada vez mais alarmante.
        
  O desenvolvimento de tecnologia para tratamento de efluentes tem aumentado nos últimos anos devido a rigidez das regras ambientais. As principais técnicas para descoloração das águas residuais são adsorção, precipitação, degradação química, eletroquímica, fotoquímica e biodegradação, esta que é muito promissora para o tratamento de efluentes.
 Entretanto os corantes sintéticos são xenobióticos (sob condições aeróbicas (presença de ar), microorganismos de rios e lagos não possuem enzimas específicas para degradação destes corantes, e sob condições anaeróbicas a degradação do corante se processa muito lentamente, podendo levar décadas. É importante salientar que, qualquer um dos métodos de tratamento para degradação de corantes será muito mais efetivo, mais fácil e mais barato se realizado na estação de tratamento da indústria, antes de atingir os rios e lagoas.O tratamento de efluentes na indústria têxtil requer investimentos de longo prazo, grandes áreas de construção e custo elevado.          
   O lançamento sem controle destes efluentes interfere na absorção da luz e oxigênio pelos vegetais e animais aquáticos, com grande potencial de bioacumulação e ao serem transportados até estações de tratamento de águas para abastecimento, contaminam os mananciais e a água distribuída à população.
Mesmo quando ocorre o tratamento dos efluentes ainda nas dependências das indústrias em suas ETE’s (Estação de Tratamento de Efluentes), esta gera como sub-produto o Lodo industrial (lama tóxica) - E segundo legislação dos órgãos ambientais vigentes, este deve ser destinado para aterros industriais específicos, mas a toxicidade deste lodo permanece - contendo compostos de formulações químicas complexas, que são muito tóxicos para nós – humanos. 
São encontrados nestes lodos industriais entre outros contaminantes: metais pesados (chumbo, mercúrio, cromo, zinco, cobalto e cobre), derivados de benzeno e formaldeído.


A água que ainda contém traços de corante, é despejada nos rios, mas persiste o problema. Infelizmente o Planeta Terra não tem válvula de descarga, e milhões de toneladas de lodo industrial estão sendo destinados para aterros industriais.

   
 Outro destino são os incineradores, mas a queima resulta no desprendimento de inúmeros compostos tóxicos na atmosfera, como as dioxinas, substâncias cancerígenas que apresentam alto potencial desregulador hormonal, também produzidas pela queima de lixo plástico, pneus, solventes ou defensivos agrícolas.        







Corantes Sintéticos em Produtos Têxteis com Certificado Orgânico
            Ao tingir têxteis produzidos com Algodão Orgânico, nos deparamos com normas adotadas por certificadoras privadas, como as novas normas GOTS - Global Organic Textile Standard e a Oeko-Tex, estas estabelecem parâmetros que restringem o uso de diversos tipos de produtos químicos em produtos têxteis certificados.
            Por exemplo, as normas GOTS proíbem o uso de apenas uma classe de corantes Azo (aqueles que liberam aminas cancerígenas) e restringem o uso de corantes dispersos utilizados para o tingimento de poliéster (que deve ser <30 mg/kg de têxtil); restringem o uso de metais pesados (como o cromo, cobalto, cobre, níquel, mercúrio, antimônio, chumbo e arsênio), todos com parâmetros com seus níveis de restrição específicos (mas não proibidos, como muitos acreditam).  
     Assim, o tipo de corante sintético utilizado, pode significar muito quando avaliado o quanto uma peça de vestuário colorida permanece com sua integridade orgânica. E nas lojas, será muito difícil obter a informação completa dos corantes e produtos auxiliares utilizados para tingir a “roupa orgânica” que você está levando para casa.
            Nestas normas, além da composição do corante, existem requisitos que devem ser respeitados sobre a toxicidade oral destes compostos, toxicidade aquática,  biodegradabilidade, eliminação versus bioacumulação (absorção permanente por órgãos e tecidos vivos). Informações GOTS  http://www.organic-textile-services.com/download/gots-portugiesisch_20080606.pdf.
            Após a divulgação destas normas, alguns fabricantes de corantes sintéticos passaram a divulgar lista de produtos (corantes e auxiliares) que atendem a esses parâmetros estabelecidos, mas quando consultamos estas Certificadoras Privadas para saber qual foi o laboratório que realizou estas análises, a resposta é que estes laudos de aprovação dos corantes sintéticos e auxiliares para uso em algodão orgânico, foram realizados pelos próprios fabricantes dos corantes sintéticos.

            Infelizmente, estas Certificadoras Privadas, com o objetivo de defenderem seus interesses, e aumentar o número de clientes no setor têxtil, crescendo assim seu faturamento, cederam espaço aprovando o uso destes compostos sintéticos para o tingimento de têxteis orgânicos. Mas em um futuro muito próximo, estas normas precisarão ser revistas.




Considerações finais

            É urgente e de extrema importância a conscientização dos fabricantes e usuários em esclarecer os riscos que estes compostos tóxicos e poluentes causam a população. O incentivo à pesquisa é primordial no desenvolvimento de novos corantes capazes de atender às necessidades de proteção aos seres humanos e ao meio-ambiente.
            Atitudes importantes para atender a estas necessidades seriam:
ñAprimorar a capacidade de fixação do corante à fibra, o que gera uma maior taxa de esgotamento e reduz a quantidade de corante no processo, diminuindo seu custo e certamente resultando na melhoria da qualidade dos efluentes.
ñAtacar o problema na fonte, ao realizar o tratamento de efluentes ainda nas dependências das indústrias, pode reduzir custos e riscos ambientais ao compararmos os gastos com tratamentos posteriores para remoção destes compostos em baixo nível de concentração e na presença de inúmeros outros interferentes.
ñRever a relação custo/benefício destes processos e o desenvolvimento de novas técnicas capazes de efetiva remoção destes corantes. Torná-las eficazes e economicamente viáveis por meio da legislação. Enquanto não houverem leis extremamente rígidas, como uma lei de incentivo ou isenção fiscal para empresas que visam impacto ambiental zero, nada mudará neste contexto.
Ao revermos as formas de avaliar e calcular esta relação custo-benefício, identificando novos indicadores de sustentabilidade (sociais e ambientais), como:
- Redução da Pressão Ambiental exercida pela Empresa;
- Melhoria da Qualidade Ambiental resultante das ações adotadas pela Empresa;
- Resposta Positiva dos Clientes e da Sociedade;
Porque, a media prazo, insistir com o uso de compostos químicos que contaminam nossos recursos naturais, como a água (bem mais precioso do planeta), tem um custo altíssimo e irreversível.
            Quando houver maior consciência, mobilização e atitude da população, junto aos interesses políticos e econômicos, ao proibir a produção dos corantes nocivos e tóxicos, abrimos espaço ao uso de corantes naturais, o que já vem ocorrendo na indústria alimentícia a nível mundial.
            A Etno Botânica vem pesquisando novas formas no cultivo de plantas tintoriais e desenvolve tecnologias inovadoras na produção destes corantes de origem vegetal e nos diversos tipos de aplicação (indústria cosmética, couro, papel, plásticos de origem vegetal e etc.).
            Ainda que de forma modesta, os corantes e pigmentos naturais estão gradativamente ganhando espaço no mundo da moda, o que nos deixa bastante otimistas. Acreditamos que a solução para reduzir a toxidez destes compostos sintéticos nocivos, será uma combinação de maiores investimentos em pesquisa na produção de corantes mais responsáveis e no desenvolvimento sustentável, com foco no retorno dos corantes naturais.
 Eber Lopes Ferreira  - Nov/2011

Atelier Etno Botânica e Studio InBlueBrazil

Empresa criada para pesquisar e desenvolver pigmentos naturais,extratos naturais e auxiliares para tingimentos em produtos têxteis, couro, cosmética, serigrafia entre outras aplicações. Especializada em desenvolvimento de produtos sustentáveis.